O Cordel do povo encantado

por Fabio de Riggi

Chico Science morreu cedo devido à sua competência em realizar as suas intenções. Morreu antes que outros, ou ele mesmo, corrompessem sua Arte.

Disse ele, certa vez em entrevista para a TV Cultura, que sua maior inspiração era a imagem de uma parabólica fincada no mangue. E é nessa imagem que nasce a cultura popular de exportação do Nordeste.

É nessa cultura que se alimenta o Cordel do Fogo Encantado.

E a base dessa cultura é a densidade. Se alguém se der ao trabalho de evitar pré-conceitos e parar para ver que a banda reúne mais do que um monte de batuque, poderá notar que o investimento primário está na fusão.

Não de mídias, mas de gêneros artísticos. Principalmente o Teatro, a Poesia e a Música: Cordel é um grupo para ser visto ao vivo, fora disso temos trilhas sonoras em cd, peças de teatro nos encartes.

E é característica de todos esses gêneros que, no grupo, as manifestações artísticas tenham um regionalismo nítido: o maracatu, o cordel, o teatro popular.

Mas regionalismo à toa é plágio.

O que percebi nos shows é uma espécie de provincianismo rancoroso, contra a idéia de que um bando de moleques do interior de Pernambuco não podem fazer algo tão bom quanto ou melhor do que alguém que conta com a estrutura urbana de um grande centro cultural.

É um pedido desesperado para que sejam tratados com seriedade. Questão de rigor.

Rigorosamente, então, a teatralidade do grupo está centrada na figura de Lirinha. Muito bem centrada. Ele é dono de uma expressão mais que barroca, rococó, de exagero corporal. O exagero da dor que provoca o cômico. Perfeito para a intenção da obra.

Quanto à música, o maracatu é conhecidamente explosivo, mas ainda parecem faltar alguns elementos de força na percussão, talvez mais marcas de estilo, menos oscilações entre o ótimo e a falta de inspiração que beira a cópia. Ainda assim, é sempre tecnicamente impecável.

Na poesia, o predomínio é de uma amoralidade quase infantil, ingênua, mais um tratamento quase divinizado dos fenômenos naturais. Fosse possível e eu criaria uma definição naturalista mitológica para explicar algo que só o cordel, quando muito em Patativa do Assaré foi capaz de gerar.

Falta algum rigor, falta cortar alguns excessos, mas a base do amoral, da riqueza mitológica que o texto produz já são capazes que colocar o homem como pequeno animal de estimação divina que antes de se revoltar pasma com o poder e a grandiosidade de seu dono.

Nem medo, nem adoração, a transcendência nesse caso interrompe-se no susto, no choque.

E isso reflete na platéia, sempre imensa e variada. Por onde acompanhei os caras sempre encontrei muita gente, desde crianças a senhores.

Para um texto amoral, permissivo, ninguém se choca nem reprime o que ocorre no meio da multidão. Nem medo ou adoração, a sociabilidade interrompe-se no choque, no susto, com a performance do palco, claro.

Mas não pude evitar saber porque tanta gente do interior de São Paulo, que até então só conhecia algo do Nordeste por iniciativas de modismo – Manguebeat, Axé, etc. – tem invadido massivamente as apresentações do Cordel.

Creio que a explicação está justamente no tal provincianismo do grupo: de Arco Verde para o mundo, porra! Poderiam dizer. E isso o público reconheceu, instintivamente, respeitando e apoiando aquela barulheira toda.

Ainda assim, sem Chico Science isso não seria possível, como também não teria sido possível o surgimento de Chico no resto do país sem distorção na guitarra e uma parabólica fincada no mangue.

O que têm a ver Manguebeat e Cordel? Pouca coisa, mas, sonoramente falando, o último não poderia ter surgido antes do primeiro.

E é justamente por isso que a cultura popular nordestina me faz negar o acaso. Só podem ser planos de Deus...


Fabio De Riggi pulou feito um condenado no show do Cordel, mas ainda não aprendeu a ser palhaço; é um bosta.
Fale com ele: fderiggi@terra.com.br
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