A Noite Dinamarquesa
em Full Frontal Soderbergh concilia A Noite Americana de Truffaut ao Dogma 95, compondo sua obra mais pessoal

por f. fischl

 

Steven Soderbergh não é apenas o diretor de Ocean's Eleven (2001) e Erin Brockovich (2000), ele também deve ser lembrado como o responsável por uma instigante produção sobre Kafka e acima de tudo como o vencedor da Palma de Ouro em Cannes por Sexo Mentiras e Videotape (1989). A versatilidade é uma marca do diretor que, em Full Frontal (2002), se aproxima da vanguarda dinamarquesa, redigindo uma série de 10 mandamentos a serem aplicados na produção.

Há algum tempo Soderbergh já havia manifestado sua vontade de realizar um projeto paralelo ao Dogma 95, e o concretiza neste que é seu filme mais criativo e pessoal. O elenco de Full Frontal é composto por uma série de astros que seguiu uma cartilha rígida. Atuando em troco de prestígio estão constantes colaboradores como o diretor David Fincher, Julia Roberts, Brad Pitt e David Duchovny (asfixiado por um saco plástico, ele realmente é mostrado em nu frontal).

Full Frontal é um filme sobre cinema que, no estilo de A noite americana (1973), apresenta o universo das filmagens de uma produção de grande porte. O início de Full Frontal é apresentado pelos créditos relativos ao “filme dentro do filme” que narra uma história de amor em meio a uma produção hollywoodiana. Em quase duas horas de projeção estas dimensões se intercalam, propondo um embate entre a realidade e a ficção que Full Frontal.

Com isso predominam duas narrativas em Full Frontal. A primeira, correspondendo ao que nos é apresentado como a realidade, é filmada com câmera na mão em completo respeito à cartilha dinamarquesa. O que assistimos é exibido como um documentário sobre os atores envolvidos na produção de um filme que compõe a segunda história dentro de Full Frontal.


O mundo real em Full Frontal: Vídeo Digital

Neste outro universo (o filme dentro do filme) o romance entre uma repórter e um ator é captado por sólido tripé em absoluta harmonia com a linguagem transparente. Nesta segunda história toma lugar a filmagem de um terceiro filme, e Soderbergh ainda encontra espaço para apresentá-lo em primeiro plano, envolto pela moldura do visor de uma câmera de 35 milímetros.

A distinção entre os dois universos principais é perceptível pela fotografia, que no “mundo real” é extremamente granulada, se assemelhando a uma projeção caseira de Super 8. Em contraposição, o “mundo de mentira” é fotografado tradicionalmente, pois o “filme dentro do filme” representa a ficção, enquanto o processo de filmagem é apresentado como se fosse um telejornal (justificando, portanto sua captura em vídeo).


A ficção em Full Frontal: Câmera sobre tripé

Ao mesmo tempo em que a simpatia pelos dinamarqueses motiva um questionamento à linguagem estabelecida, Soderbergh levanta uma crítica ao docu-drama sempre lembrando que tudo não passa de uma ilusão. Este desdobramento realidade X ficção chega ao ápice na tomada final em que o próprio diretor e a equipe de filmagem são mostrados quando a câmera se afasta do cenário que compunha a quadro.

http://www.fullfrontal.com/

F. Fischl é Bacharel em Comunicação Audiovisual pela Univ. Federal de São Carlos
filipe@wezen.com.br

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