Greenaway's Books

diretor inglês redefine o cinema

por F. Fischl


cena de Prospero's Books, 1991 de Peter Greenaway

"A noble Neapolitan, Gonzalo, (...)
Knowing I love my books, he furnish'd me,
from my own library, with volumes that
I prize above my dukedown"
Ato I Cena II The Tempest

... esta é a única citação que o Prospero de Shakespeare faz a respeito de seus livros na peça de 1611. Mas para o Prospero de Greenaway, os livros valem mais que a vida. O filme gira em torno da exposição de sua coleção de 24 volumes, onde temos em ação paralela o desenvolvimento da peça de Shakespeare que ocorre simultaneamente, e por vezes até sobreposta, a imagens do personagem de John Gielgud escrevendo e recitando todas as falas e ações da própria história. Assim, Prospero é Greenaway, que apresenta sua própria visão da peça a medida em que a relata. Vemos na tela a projeção do imaginário de Greenaway construído por sua complexa leitura da obra.

Prospero's Books não é adequado para quem deseja assistir a uma simples representação de The Tempest, na realidade não é sequer indicado para quem não conhece a peça e apenas pretende estudar a intrincada linguagem multimedia do diretor. Trata-se de uma obra que como ressaltou o crítico americano Roger Ebert, não pode ser definida como um filme no sentido que aplicamos a palavra. Os projetos de Greenaway não se limitam ou tomam por finalidade a película, sua formação de artista plástico lhe atribui uma atitude extremamente abrangente com relação a arte.

Para breve em Wezine, leiam mais sobre seu filme, The Tulse Luper Suitcase, que só pode ser compreendido, com o auxílio de um CD-ROM, um vídeo, um livro e visitas diárias a seu Web Site que traz informações atualizadas sobre o projeto. Assim como em Prospero's Books, é "Na base, um filme, mas logo uma soma de tecnologias e suportes para projetar o espectador atual além de 2001" (Merten, Luiz "Peter Greenaway antecipa o próximo milênio" em O Estado de SP, 5 de junho de 1999).

Fotografado em cinema contando com o auxílio do vídeo e finalizado com recursos de computação gráfica, em Prospero´s Books, por vezes a movimentação cênica lembra um balé, em outras cenas vemos desenhos que são emoldurados por tarjas em movimento que nos remetem a um quadro barroco. Às falas dos personagens são somados efeitos de eco, mixados a partir voz de Gielgud. Desta forma em nenhum momento temos a simples apresentação de uma peça de teatro filmada.

A literatura se faz dominante, quando os livros são mostrados com enorme detalhismo em sua tipografia, caligrafia e ilustrações extremamente ricas. Estas cenas são sobrepostas a imagens da ação transcorrendo ou de John Gielgud narrando-as. Em certos momentos, a overdose de informações chega a justapor seis elementos distintos construindo a cena. Emoldurando a tela, sempre temos imagens que se metamorfoseiam, ou caracteres descritivos. A utilização de novas técnicas faz com que Greenaway construa e destrua cenas, sobreponha, complete e transforme imagens diante de nossos olhos. As mais modernas tecnologias passam a trabalhar associadas à narrativa e não a pretensão de realismo presente no cinema comercial. Greenaway não acredita que o cinema tenha a mera função de entreter, rompendo uma consolidada linguagem, "ele pressupõe uma arte de relação, de sentido, e não simplesmente do olhar e da ilusão." (Arlindo Machado em Folha de SP).

 

F. Fischl é Bacharel em Comunicação Audiovisual pela Univ. Federal de São Carlos
filipe@wezen.com.br

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