O marido era o culpado
Hitchcock observa o terrorismo

por F. Fischl

 

O marido era o culpado (Sabotage) é obra da fase inglesa de Hitchcock lançada em 1936. No filme Oskar Homolka é o responsável por uma série de atentados cometidos por um grupo terrorista em Londres. Embora na história original o personagem principal fosse um escritor, Hitchcock decide caracterizá-lo como dono de um cinema. Aparentemente é um cidadão acima de qualquer suspeita, responsável pela exibição de desenhos de Walt Disney.

Sylvia Sidney interpreta a esposa de Homolka, e nada sabe as atividades ilícitas do marido. Por estar sendo vigiado pela polícia, Homolka obriga o jovem irmão da esposa a levar um pacote e alguns rolos de filme ao centro de Londres. Sem perceber que estava carregando uma bomba, o menino se atrasa e não consegue deixar a tempo o embrulho no local determinado.

Apresentar a morte de um garoto de maneira tão cruel deve ter exigido muita coragem de Hitchcock. Sete décadas mais tarde esta seqüência adquire outra conotação, pois embora a morte de crianças na tela seja um recurso banalizado, está aberta a temporada de caça ao terrorismo e a comportamentos suspeitos. Em nenhum momento do filme o diretor vincula a ação dos terroristas a qualquer ideologia, o que alias seria muito estranho, pois para a cartilha do mestre tal embasamento só faria comprometer a criação suspense. O modo de se contar a história é mais importante que a história em si, portanto não há tempo para o superficial. Neste sentido apenas sabemos que o personagem de Homolka é um estrangeiro.

Como de costume Hitchcock não simpatiza com os agentes da lei, e lhes prescreve pequeno espaço na trama. O policial interpretado por John Loder é um personagem fraco sendo muito mais marcante a presença dos canários na gaiola em que se escondiam explosivos. Os pássaros aqui possuem uma conotação negativa, e antecipam a utilização apocalíptica que o mestre lhes daria anos mais tarde.

Hitchcock lamenta ter criado um anticlímax com a morte do garoto ocorrendo muito cedo na trama. Contudo, toda a emoção obtida magistralmente pelo suspense criado nesta cena, não ultrapassa a genialidade da seqüência em que a personagem de Sidney vinga a morte do irmão. Através da montagem, e não da exigência de jogos de fisionomia dos atores, aos poucos se percebe que a faca sobre a mesa de jantar não está ali para exercer sua função costumeira. Hitchcock explica que teria sido errado exigir de Sidney expressões e gestos forçados que explicitassem o que se passava em seu interior, pois isto não seria natural. O público deve tomar consciência do que está acontecendo através dos recursos disponibilizados pelo cinema, ou seja, através de enquadramentos bem planejados e uma montagem eficiente.

F. Fischl é Bacharel em Comunicação Audiovisual pela Univ. Federal de São Carlos
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