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Straight
Story por F. Fischl
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David Lynch pode muito bem se valer da linguagem "correta" para construir um filme que não foge a média de sua obra. Em Straight Story, 1999, não existem cadáveres enrolados em plástico, alucinações ou um travesti trabalhando como agente do FBI. A estrutura é a mais simples possível e a montagem óbvia. Em todos os sentidos trata-se de um filme padrão, e mesmo assim o resultado e excelente. Na história comportada de Lynch, a câmera capta a trajetória de um homem percorrendo centenas de quilômetros num cortador de grama. Embora diverso da obra do cineasta, o mote do filme é suficientemente estranho para justificar a produção, que se baseou numa história verídica. Alvin Straight, de 72 anos, decide visitar o irmão que não vê a dez anos, e devido à velocidade de seu meio de transporte, não pode imaginar se conseguirá chegar a tempo de encontrá-lo vivo. A partir do nome deste personagem real, Lynch se endireita e rotula seu novo filme, optando por seguir a linha de produção que tanto agrada a Academia. Embora sentimentalista e aparentemente banal, a jornada redentora torna-se extremamente cativante. Os elementos essenciais contidos na obra do diretor estão todos presentes. A autoria da música pertence ao constante colaborador Angelo Badalamenti, que parece não ter se sentido incomodado em escrever variações sobre um tema country tradicional para "ilustrar" a história. Assim como em Lost Highway, o contraponto entre o silêncio e os efeitos sonoros obtêm grande importância. Em Straight Story, a cena em que Alvin narra suas aventuras durante a Segunda Guerra, merece especial atenção pela utilização deste recurso. Os enquadramentos extremamente elaborados revelam uma precisão matemática que sela um eficiente pacto entre o público e a história de Alvin. Pode-se citar como exemplo a preferência de Lynch por valorizar a profundidade de campo. Tal técnica no entanto, visa não apenas o realismo enquanto transposição do campo visual humano, mas busca acima de tudo atingir a dramaticidade necessária ao "cinema transparente" que norteia o filme mais certinho do diretor. Ainda na busca da atmosfera correta para o filme, fotografias aéreas de Alvin em estradas que parecem não ter fim, evidenciam a solidão e o caráter ínfimo do ser humano e... Lynch se mostra preocupado com a verossimilhança dos mínimos detalhes e se recusa a filmar em estúdio, optando por deslocar sua equipe à cidade em que o verdadeiro Alvin morou. Por conta de todo o perfeccionismo do cineasta, é impossível deixar de imaginar as dificuldades que a direção de fotografia deve ter enfrentado em certos planos. Absolutamente emotivo, Lynch se afasta do experimento
para filmar o mais óbvio cinema. Mesmo "contando uma história",
consegue um grande resultado e não perde a benção
da Cahiers du Cinéma. Em entrevista, o diretor diz que se sente
muito próximo da sensibilidade européia, pois na Europa
as pessoas detêm uma liberdade que não lhes é
garantida nos Estados Unidos.
F.
Fischl é Bacharel em Comunicação Audiovisual
pela Univ. Federal de São Carlos |
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