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A vida
ao redor - n°1 por Martim Vasques da Cunha |
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"I'm gonna spare the defeated, boys, I'm going
to speak to the crowd
Trinta anos depois, Raymond Aron lançou "O ópio dos intelectuais", um dos mais devastadores tratados contra a intelligentzia. Aron era mais lúcido que Benda: para ele, o intelectual tornou-se um agente político a favor de uma única ideologia - a marxista, que atuava como uma religião que entorpecia suas consciências e provocava influências nefastas no senso comum do cidadão, distorcendo toda a noção de valores tradicionais. Em ambos os casos, Benda e Aron foram tachados de conservadores, reacionários, imbecis e paranóicos - uma série de clichês típicos de esquerdosos onanistas. Infelizmente, é muito rara no Brasil a linhagem de intelectuais que criticam seus próprios pares, pelo simples motivo que ninguém aqui possui cojones. A teoria de Sérgio Buarque de Hollanda do "homem cordial" se aplica com perfeição na elite intelectual brasileira, não pelo fato de que todos são amáveis ou serenos, e sim porque é uma regra básica não falar mal do seu parceiro de grupo, pois seria contra as normas da boa educação. Esta psicologia de avestruz só poderia terminar em "panelinhas" que giram em torno de um único templo - a universidade. O comportamento do intelectual - camuflado em jornalista, professor ou artista - é sempre ser um parasita do Poder. O único sentido que encontrou na vida das idéias foi o de não deixar os bolsos puídos e o de ter uma estabilidade para a boa e velha aposentadoria. A possibilidade de se inserir na cultura de uma determinada tradição se torna um meio de sobrevivência no mundo - e não uma forma de compreendê-lo para, enfim, transcender à realidade mundana e encontrar uma unidade perene sobre a confusão da multiplicidade. Assim, o que poderia ser a criação de uma elite intelectual digna vira um rascunho de casta, em que seus integrantes moldam as idéias de acordo com suas vicissitudes materiais e políticas, sempre às custas de um leitor otário que acredita piamente no que está escrito e faz outros imbecis acompanhá-lo no ardor do rebanho. O melhor e mais perfeito exemplo desta decisão que deixaria até mesmo Fausto de cabelo em pé, é G.W.F. Hegel que, financiado por seitas gnósticas e maçônicas, provocou uma mistura indigesta de filosofia com magia negra em sua obra, confundido consciência com cognição, isolando o Absoluto como um processo à parte da realidade, endeusando o Estado como a única autoridade possível e impondo ao ser humano a tirania do progresso e do sentido imanente da História. Deu no que deu: a dialética hegeliana inspirou ninguém menos que Karl Marx, um sujeito que gostava de praticar ritos satanistas e que, apesar de defender o proletariado, não assumiu o filho bastardo que teve com a empregada. Esta atitude bifronte que estes dois sujeitos tinham perante suas vidas e suas obras é a prova de como o intelectual está perto de ser um perfeito neurótico, já que sua atitude moral é relativizada frente aos resultados idealistas que seus escritos deveriam provocar na vida real. Neste ponto, o intelectual tupiniquim acompanha passo a passo os seus "mestres". Atualmente, temos três exemplos intimamente relacionados: a reação da imprensa à crise entre o PFL e o PSDB; o reaparecimento de D. Marilena Chauí com sua "História da Filosofia Ocidental", em quatro volumes e as eleições para a disputada reitoria da Unicamp. No primeiro caso, fica claro que os jornalistas, angustiados ao verem que o PT não terá uma vitória tão certa nas eleições presidenciais, graças às trapalhadas em que se envolveram com seqüestros, terroristas e assassinatos, decidiram ficar ao lado de José Serra, um aficcionado pelo poder do Estado, desde dos tempos de movimento estudantil na década de 60. Um leitor perspicaz perceberá que, nos últimos tempos, artigos de luminares como Marcelo Coelho, Otávio Frias e até mesmo Alberto Dines, criticam o PT e a figura de Lula como a de uma oposição que não apresenta nenhuma novidade, mas também insinuam que Roseana Sarney pode ser um resto da "extrema-direita", oriunda do regime militar. Logo, a opção mais equilibrada seria Serra, que continuaria o governo FHC, e também garantiria alguns cargos públicos para boa parte dos jornalistas esfomeados que rondam as redações do país e que seguem à risca os ensinamentos esquerdosos. Não é à toa, portanto, o regozijo dos jornais e revistas nacionais ao mostrar a súbita decadência de Roseana Sarney nas pesquisas, uma pessoa que pode não ser uma santa, mas, por incrível que pareça, era algo oposto ao totalitarismo gramsciano que invadiu a cultura e a política brasileiras. Tal estado de coisas parece perdurar por mais algum tempo quando sabemos que D. Marilena Chauí, a musa da filosofia da USP, lançará um ambicioso projeto de contar a história da filosofia ocidental em quatro grossos volumes. Este fato coroa, na verdade, trinta anos de obstinada lavagem cerebral. D. Marilena foi responsável, com sua falsificação de filosofia em ideologia política, pela desinformação de milhares de jovens com seus livros "Convite à Filosofia" e "O que é Ideologia", adotados por escolas e universidades que venderam o conhecimento ao Diabo há muito tempo. Misturando alhos com bugalhos, e com uma notável imperícia dos mais simples ensinamentos socráticos, D. Marilena é alçada à condição de "pensadora" quando não passa de uma simples transmissora de dados manipulados com malícia, visando inverter a ordem natural do mundo. Sua "História da Filosofia Ocidental", a ser lançada pela Companhia das Letras, a editora favorita dos intelectuais, não pode ser considerada como tal porque discorre logo no seu segundo volume sobre o Epicurismo, um arremedo de filosofia que, se tem alguma lógica, é apenas uma - a lógica da morte. Mas, talvez o fato mais gritante seja a eleição para a reitoria da Unicamp. Louvada nos quatro cantos do mundo, a Unicamp é o orgulho da nação, como querem mostrar os programas dos candidatos; contudo, não passa mesmo de uma ilha que nem Robinson Crusoé gostaria de habitar, apesar de todas as suas maravilhas tecnológicas. Os avanços na Física e na Medicina realizados por alguns membros desta universidade são, infelizmente, exceções de uma regra secreta, sussurrada nas salas de aula e que ninguém ousa questionar: o acentuado encastelamento do professor da Unicamp, do próprio meio social onde vive e habita. Por mais que eles neguem, os intelectuais enraizados em Barão Geraldo possuem ouvidos tísicos que escutam somente o que querem e não o que deveriam ouvir. A Unicamp é o exemplo perfeito da "panelinha", um templo intocado onde a consciência é anulada aos poucos, a favor de uma idéia incompatível com a realidade. Nem mesmo os candidatos à reitoria podem fazer alguma coisa: em seus artigos e entrevistas publicados no Correio Popular, mostram uma boa intenção que chega a ser irritante, pois, por baixo de palavras bonitas, mas que carecem de sentido, exibem simplesmente a acomodação ao Poder e o desejo realizado da estabilidade que tanto procuram. Dizem que a qualidade essencial ao intelectual é a serenidade. Esta "virtude" ocorre porque, como bem apontou Paul Jonhson, ele prefere a idéia ao ser humano. No entanto, quem quer ser sereno em uma realidade onde domina a degeneração espiritual, é tonto ou louco. É hora de mandar a serenidade para o quinto dos infernos. Numa guerra, seja contra a violência ou a imbecilidade, devemos saber que a traição dos intelectuais contra sua vocação moral é o estopim para o surgimento de Andinho, PCC, FARC, Osama bin Laden e et caterva. Julian Benda e Raymond Aron continuam certos: o engajamento político foi um preço muito baixo para uma ideologia tão casta quanto a de uma prostituta de três dólares. Não se pode mudar a situação com um estalar de dedos, mas qualquer um com um mínimo de dignidade tem a responsabilidade de avisar ao seu próximo destas aberrações para que, algum dia, sejam purgadas da face da Terra pelos seus próprios erros.
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