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A vida
ao redor - n°3 por Martim Vasques da Cunha |
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Cine Majestic" (The Majestic, 2001), filme de Frank Darabont, com Jim Carrey em seu terceiro papel dramático (depois de "O Show de Truman" e "O Mundo de Andy"), parece ser inspirado por Frank Capra, mas não tem nada do mestre ítalo-americano. Sua narrativa é quadrada, para não dizer esquemática, dividida em três grandes atos; a atuação é competente (finalmente, Carrey prova que não é um pastiche de Jerry Lewis, e Martin Landau está excelente, como de hábito) e a direção de Darabont é segura, mantendo o interesse do espectador numa história que, afinal de contas, é um mero esqueleto dramático para uma desonesta peça de propaganda política. Carrey é Peter Appleton, uma pessoa medíocre que tenta ser um roteirista medíocre, no mundo medíocre de Hollywood nos anos 50. Rodeado de mediocridade, é inevitável que Appleton seja acusado de ser algo mais medíocre ainda: um comunista. Isso não é nada bom, já que a Comissão de Atividades Antiamericanas, comandada pelo medíocre senador McCarthy, está na sua "caça às bruxas", operação medíocre que persegue os medíocres espiões do Partido Comunista, infiltrados nos estúdios hollywoodianos e usa um método digno dos pústulas - a delação. Arrasado por ver o seu prestígio cair como uma fruta podre, Appleton toma uma atitude digna de seu caráter medíocre: bebe como um gambá e, graças ao deus ex machina, tem um acidente de carro deplorável, caindo no rio e batendo a cabeça. O leitor sabe onde isso vai parar: Appleton perde a memória, é confundido com um herói de guerra numa cidadezinha americana corroída pela perda de seus jovens na Segunda Guerra, vive a vida do morto, amando um pai que não é seu pai e namorando uma noiva que não é sua noiva. Enfim, um imbróglio dos diabos. O leitor sabe também que o FBI vai encontrar o pobre sujeito e o levará à tal da Comissão para prestar seu depoimento e dizer que só foi comunista por um dia, justamente porque queria bolinar uma mocinha bonita. Mas até lá, Frank Darabont, um diretor que gosta de esticar seus filmes até o limite do nostálgico ("À Espera de um Milagre", com suas três horas de duração, que o diga), deixa o espectador imerso por duas horas e dez minutos numa trama cheia de lances sentimentais, tudo feito milimetricamente para despistar a verdadeira intenção do filme. São nos últimos vinte minutos, quando Appleton se depara com uma decisão crucial em que está em jogo a sua alma, que Darabont mostra ser um diretor tão medíocre quanto seu personagem principal. Appleton, um sujeito que nunca lutou por uma causa, de repente decide abraçá-la. O que seria essa causa? Appleton esbraveja a Constituição americana, mas não sabemos qual é a maldita causa que ele está defendendo. Muitos dirão que é a liberdade de expressão, outros dirão que é a democracia. Nada disso: o que Peter Appleton - e, por conseqüência, o filme como um todo - defende, é o ativismo político como a única maneira do mundo ter algum sentido. O que poderia ser um filme sobre a esperança
recuperada e a vitória do indivíduo sobre as armadilhas
que as circustâncias da sociedade lhe impõem vira uma
peça de propaganda política. Apesar de ser made in Hollywood,
"Cine Majestic" é gramsciano até a medula.
Appleton troca a sua consciência moral por uma conscientização
política, substituindo o que há de mais profundo no
ser humano - a sinceridade consigo mesmo - por uma paródia
da ética e do heroísmo. Ele pode até ser um herói
para o resto dos personagens e para a maioria do público, mas
na verdade continua sendo um sujeito medíocre, querendo uma
vida medíocre, com uma loira bonitona e igualmente medíocre.
Propaganda política por propaganda política, é
mais divertido ver Anthony Garotinho chorar como um bezerro desmamado
no culto evangélico. Só pela desonestidade que é
"Cine Majestic", ao manipular a arte do cinema em função
de uma ideologia de baixo nível, o público deveria expurgar
Frank Darabont da face da terra. Pena que poucos saibam o que se passa
na frente dos seus olhos.
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