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A vida
ao redor - n°5 por Martim Vasques da Cunha |
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"I walk on concrete, "Eu ando sobre o concreto, eu ando sobre a areia, mas não consigo encontrar um lugar seguro para ficar". A frase é terrível, sem dúvida, e toda uma sensação de deslocamento, de exílio, de inaptidão - e, principalmente, de perigo - aparece, entre guitarras musculosas e um ritmo nervoso, no início do grande álbum de P.J.Harvey, "Stories of the sea, stories of the city". Geralmente, fazer rock-n´-roll é uma profissão quase masculina, mas, obviamente, isso é uma besteira. Ao mesmo tempo que temos um Neil Young ou um Lou Reed, existe uma Patti Smith ou então a própria Polly Jean Harvey, uma cantora inglesa nascida no vilarejo marítimo de Dorset. Isto acontece na seção "guitarra - baixo - bateria - voz ", o quadrado sagrado do rock. A mesma comparação pode se fazer no setor "melodias leves e agradáveis com letras irônicas", no qual o mestre é, para pesadelo de muitos, o meloso Burt Bacharach. Muitos críticos acreditam que seu mais afinado discípulo é o elegante Elvis Costello, mas, infelizemente, ele perdeu o posto para uma moça de quarenta anos, loira, alta, e que briga o tempo todo com a indústria fonográfica americana: Aimee Mann. Há ainda um adendo: Mann é infinitamente melhor que seus mestres, não só por ser mulher, mas por ter uma ironia que chega ao patamar da sabedoria, uma sabedoria que, por sua vez, tem muito mais de Lou Reed do que de Burt Bacharach. Tanto P.J.Harvey como Aimee Mann não ficam resmungando sobre como "o homem é um crápula safado e etc, etc, etc, etc" e todo aquele papo feminista que fizeram a fama de Gloria Steihem e estragaram talentos como Erikah Badu e Paula Cole. Parece que ocorre o contrário: elas gostam dos homens e, o melhor, gostam de falar sobre eles. E, na verdade, ambas sabem o quanto as suas vidas artísticas tiveram uma incrível reviravolta por causa de, justamente, dois homens. No caso de P.J.Harvey, o homem foi ninguém menos que Nick Cave, o cantor australiano que virou uma lenda viva graças a músicas como "The Carny" e "From Her To Eternity", filmados brilhantemente por Wim Wenders em seu clássico filme "Asas do Desejo" (1988). "Stories of the sea, stories of the city" é uma reflexão do relacionamento que Cave e Polly Jean tiveram entre 1996 e 1998. Nesse tempo, Cave fez dois álbuns estranhos, "Murder Ballads" (onde dividia uma faixa com P.J.) e "The Boatman´s Call", em que ruminava o fim de sua relação com a inglesa. Enquanto isso, Polly Jean lançava "Is This Desire" (1998), seu disco mais sombrio, repleto de programações e sonoridades eletrônicas, muito diferente dos primeiros "Dry" (1993) e "Rid of Me"(1994), agressivos, rudes e prestes a explodir a qualquer momento. "Is This Desire" era um notável desenvolvimento, especialmente na canção "The River", uma das mais melancólicas já feitas. Mas o fantasma de Cave ainda a assombrava e a única solução foi se mudar para Nova York para acalmar os ânimos. Mas, como já dizia Bono, "In New York you can´t forget, forget how to sit still" - e foi isso aconteceu com Polly Jean na Big Apple. Armada com uma guitarra, Harvey começou a compor as canções para seu novo álbum e, por uma estranha ironia, elas ficavam cada vez mais parecidas com músicas do mar, especialmente de sua cidade natal, Dorset. Para quem não sabe, Dorset é um vilarejo inglês que só se vê água por todo lado - e as ondas do mar influenciavam no ritmo e nas letras das composições de P.J.. Enquanto isso, no vale de San Fernando, um rapaz de 28 anos escrevia um roteiro para um filme de três horas de duração e que falaria sobre perdão, arrependimento, coincidências e chuvas de sapos. Seu nome era Paul Thomas Anderson, e o tal filme seria nada mais nada menos que "Magnólia"(1999), o épico sobre "coisas estranhas que acontecem o tempo todo". No exato momento em que estamos retratando-o, Anderson está literalmente empacado com uma passagem do roteiro: seus oito personagens chegaram a um ponto em que eles não sabem o que fazer. O próprio Anderson não sabe o que fazer. Ao fundo, ele escuta uma canção embalada numa voz dócil, calma, costurada em um piano melancólico, e, então, num desses fenômenos de sincronicidade que só ocorrem uma vez a cada cem anos ( para citar Vladimir Nabokov), vem a frase definitiva: "It´s not going to stop until you wise-up"(Não vai parar até você não se tocar). Era Aimee Mann dando a solução para o problema. Imediatamente, Anderson colocou os personagens cantando a canção, além de enxertar várias vezes outras músicas como uma espécie de comentário sobre o que acontecia na tela. "O que eu queria fazer com 'Magnólia'", explica Anderson, "era, do mesmo modo que se adapta um livro para cinema, adaptar as canções de Aimee Mann para o filme, falando sobre os mesmos temas, como o medo da solidão e como você se sente inadequado em um mundo muito estranho". Ponto para Anderson: se há algo que Aimee Mann sabe falar como poucos é justamente o medo de se sentir sozinho, de ser um deslocado o tempo todo - de andar sobre o concreto, sobre a areia e não encontrar lugar seguro para ficar.
E deslocada era o que ela era na época. Sem contrato com nenhuma gravadora de grande ou médio porte (a última foi a A&M Records que, segundo Aimee, "sabotou o meu trabalho"), Mann se trancou em um pequeno estúdio e gravou algumas músicas com uma banda de amigos. O resultado foi uma fita-demo com cerca de 30 músicas que foram parar na mão de Paul Thomas Anderson graças a Michael Penn, marido de Aimee e produtor de bandas como The Wallflowers e Macy Gray. Anderson escreveu o roteiro de "Magnólia" em cima desta fita e, ao ver que o trabalho de Aimee havia se tornado o eixo do filme, convidou a cantora para fazer a trilha sonora. "Magnólia", como todos sabem, foi um sucesso, e de repente, para os críticos de plantão, surgiu uma moça chamada Aimee Mann. Claro que ela não era uma amadora: Aimee havia conseguido um relativo sucesso nos anos 80 com a banda feminina Til Tuesday e seus primeiros discos solos foram elogiados pelos especialistas da indústria fonográfica. Mas, como a própria disse em uma entrevista à Spin Magazine, "eram trabalhos de alguém que ainda não tinha coragem de desafiar, de arriscar". Assim, ela fez algo que poucos teriam coragem de fazer: criou a sua própria gravadora, a SuperEgo Records, e lançou "Bachelor n 2", o álbum final daquele fita-demo que Paul Thomas Anderson estava ouvindo há um ano. Desprezando as grandes gravadoras e distribuidoras, Mann promoveu seu disco somente pela Internet em seu site oficial (www.aimeemann.com) e, em menos de 2 meses, a HMV (uma das maiores redes de loja de CDs dos EUA) assinava um contrato de distribuição exclusiva. Isso não a tornou um estouro de vendas, mas permitiu a Mann uma liberdade criativa sem precedentes em sua carreira. O mais interessante é que o trabalho de Mann não é nada experimental. É pura música pop, feita com habilidade de mestre e carinho de confecção. "Bachelor n 2, or the last remains of the dodo" é um álbum perfeito em sua totalidade, daqueles que você escuta com um prazer de decorar cada nota de guitarra, cada virada de bateria e, claro, o tom da voz de Aimee Mann, cantando de forma agridoce como é díficil manter um relacionamento entre duas pessoas e, muitas vezes, consigo mesmo. Suas letras, assim como as de P.J.Harvey, podem ser definidas como estranhas histórias de sabedoria. Vejam como ela fala de remorso de uma maneira irônica e sutil nesta estrófe de "Red Vines": "And tell me, would it kill you (E diga-me, isso
vai te matar) O verso "Do you know what I mean" pode parecer comum já que todo o americano fala, como se fosse um maldito vício, esta expressão no final de cada frase (Os brasileiros também caem no mesmo erro com o famoso "né?" ou o horrível "cê tá me entendendo?"). Mas aqui Mann quer dizer algo mais: geralmente esta expressão é usada para enfatizar o que o interlocutor quer dizer; no entanto, nesta canção, "do you know what I mean" é, na verdade, "você sabe realmente o que estou querendo dizer?". De um simples clichê, Mann esmiúça o problema de todo o relacionamento: comunicação. As pessoas se encontram, se falam, conversam sobre aquilo, sobre o tempo, sobre o cachorro do vizinho, se olham, mas não se entendem. Aliás, ninguém se entende, é o que parece dizer tanto Aimee Mann como Polly Jean Harvey. Observem "The mess we´re in", a sétima faixa do álbum de P.J.. Cantada em dueto com Thom Yorke do Radiohead, é uma típica balada de separação, mas que termina com uma dignidade incrível: "The way you wanted (Como você queria) Os dois amantes aceitam que a possibilidade de nunca
mais se verem é algo que acontece nesta vida. Pode parecer
uma inversão de valores neste mundo materialista, dominado
pela gana de ganhar e de vencer em tudo, seja na vida pessoal ou profissional,
mas, às vezes, nem sempre uma perda é uma perda - pode
ser uma vitória. E, como todo o ser humano, elas também podem ter suas falhas e seus remorsos. Aimee Mann capta isso com uma frieza de cirurgiã em "Just Like Anyone": " So maybe I wasn´t (Então eu não
fui) A simplicidade destas palavras talvez não podem ser entendidas em sua totalidade. Há um remorso que corroí a voz de Aimee que chega a ser comovente - ainda mais, quando na canção seguinte, "Susan", ela chega a acreditar na esperança que pode ser uma ilusão, "mas é muito bonita enquanto ainda está aqui". A vida é complicada, pessoal, parece dizer Aimee e Polly Jean, mas não custa aceitar ela como é. Este é o jogo e, ao mesmo tempo, a regra do jogo. Se no fim de "Bachelor n 2", Aimee Mann termina afirmando que o amado ou amada realmente faz as coisas acontecerem ( na antológica "You Do"), P.J. Harvey termina "Stories of the sea, stories of the city" com o medo de "You carried all my hopes (Você carregou
todas as minhas esperanças) porém aceitando o mundo como ele é e não
como deveria ser. Pois assim são as coisas que ficam, e não
as coisas que passam: elas podem estar terminadas em um dia, mas recomeçadas
no outro. Começar de novo é a primeira regra de todas
as sabedorias. E somente as mulheres -"este continente obscuro
da existência humana", como diria o doutor Freud - podem
fazer isto realmente acontecer. |
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