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A vida
ao redor - n°6 por Martim Vasques da Cunha |
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Enquanto os politicamente corretos comemoraram a votação da lei de cotas para negros nas universidades brasileiras, o Supremo Tribunal Federal negava, no dia 24 de abril, o pedido de dois pais para educarem seus filhos em casa, apenas com a supervisão da escola nas avaliações. Ambas as decisões - uma favorável ao Estado-Leviatã, a outra contra o direito da liberdade individual - provam que o Brasil parece ser a vaca que adora ir para o brejo, desde que este brejo tenha aposentadoria garantida e outros vencimentos, anexados como bônus no holerit. São dois fatos lamentáveis, porque invertem, como numa hipnose, as noções que um cidadão deveria ter de cinco tópicos: Direito, Estado, Igualdade, Educação e, last but not least, Racismo. O caso do procurador da República, Carlos Alberto Carvalho de Vilhena Coelho, e de sua esposa Márcia Marques, que queriam apenas educar seus filhos, na tradição do "homeschooling", prática muito comum nos EUA, mostra que ainda existem pessoas que sabem muito bem como está o caos neste mundo. Infelizmente, o Supremo faz questão de não ver isso, e deixa a educação à margem de uma nova e perigosa ordem mundial. Na questão das cotas para negros nas universidades, a vitória é de uma das mais nefastas estratégias de ressentimento: a ação afirmativa (affirmative action). Este termo foi criado por intelectuais americanos que defendem a pressão de minorias (negros, gays, latinos, etc.) nas áreas midiáticas, institucionais e judiciárias, para forçar uma reparação pelos anos em que elas ficaram fora dos privilégios da civilização ocidental, por puro preconceito da sociedade, segundo alegam esses defensores dos fracos e oprimidos. Na verdade, a ação afirmativa é um programa de doutrinação política, e como tal, deve ser vista com total desconfiança. Quem pratica este tipo de reclamação parece ser um defensor da liberdade, mas é mais uma marionete dentro de um jogo em que o alvo é a escravização do espírito. Para isso, fazem questão de mudar o eixo das relações jurídicas e sociais entre os indivíduos, ponto central do Direito Privado, para submeter a pessoa numa relação em que o sujeito ou o objeto interessado é o Estado. Assim, assuntos que deveriam ser resolvidos na esfera privada - como a educação - são manipulados, pelos políticos e ressentidos de plantão, para serem solucionados na esfera do Direito Público, onde o Estado, antes com uma atuação indireta, participa agora ativamente no problema. É claro que isso é a semente de uma tirania, onde o Estado, aparentemente mínimo e democrático, se torna um monstro devorador de gastos e tributos, pronto para acabar com a consciência individual e mandá-la para mais um rebanho. Os defensores da ação afirmativa querem que o Estado supra as necessidades básicas do indivíduo porque acreditam, sabe-se lá porquê, que ele é a base de toda a democracia. Um erro grosseiro. O Estado é o grande espoliador, e a sua máscara para enganar os trouxas é a mais eficiente e simples - a igualdade, este termo vago, usado para manter uma relação estável entre as pessoas, alegando que "todos são iguais perante a lei", quando esta lei era um direito que, graças ao politicamente correto, virou uma obrigação que só pode ser administrada pela res-publica. A malícia no uso do termo "igualdade" implica que o problema da educação deveria ser um direito dado a todos, sem exceção. Para forçarem goela abaixo uma lei de cotas, na qual as universidades devem ter 20% de negros, em pleno ano eleitoral, supõe-se que eles tiveram pouca ou quase nenhuma educação. Se o leitor tiver a noção de que a educação não é aprender o abecedário ou saber as quatro operações, mas sim uma atitude em que a pessoa decide se projetar sobre o mundo para conhecê-lo e nunca para transformá-lo, verá que ela se trata de um poder de escolha no qual o Estado deve ter uma participação mínima. O símbolo fundamental que deve ter parte neste processo é a família, e compete a ela conduzir o sujeito, desde a mais jovem idade, a ter uma noção do que é essa tal de educação, para enfim dizer consigo mesmo: "Eu quero me educar e ser educado". O argumento parece ser elitista, o que dará início ao termo pejorativo "racista" para muitos destes oportunistas. Quem está praticando racismo nesta história são justamente aqueles que desejam que a lei de cotas seja aprovada aos olhos do admirável mundo novo. Graças à tão sonhada democracia, ao tão bonito Estado e à tão linda igualdade, resolveram nivelar o problema da educação por baixo, jogando tudo na culpa do capitalismo e cicatrizando a ferida através da milagrosa raça. Eles acreditam que conseguiram uma liberdade ímpar, mas a única coisa que fizeram foram apertar ainda mais as correntes da antiga senzala. É fato de que o Brasil tem um número gigantesco de analfabetos. Contudo, ninguém parece perceber que a pobreza, seja material ou espiritual, é o estado natural da humanidade. O contrário desta atitude se chama evolução, e a educação de um ser humano é apenas um dos estágios deste processo. E a evolução, já dizia Darwin, é apenas um longo caminho do início ao fim, repleto de exceções. São elas que fazem a História girar. Entretanto, quando se sabe que o Brasil da classe estudantil, numa seleção de 32 países, ficou em último lugar numa pesquisa publicada pela Unesco em dezembro de 2001, justamente no quesito de leitura e compreensão de textos, entende-se que uma lei de cotas para negros não é apenas racismo camuflado: é também puro egoísmo. Como podem resolver a questão de uma raça se toda a elite intelectual está doente? Os analfabetos ainda conseguem ler o mundo, como muitos fazem, mas aqueles que querem ler o Estado através de um diploma universitário verão que o Leviatã já devassou suas almas há muito tempo. E ele encontrou o que mais queria: nada. Assim, temos uma nova educação para a nova ordem - a Educação dos Homens Ocos. Num país onde uma família não pode criar seus próprios filhos em casa, mas deixa um plano de tomada de poder se tornar sinônimo de liberdade, é sinal que está louco dos pés à cabeça. Poucos têm a força para ver em cada um o vazio da mente se aprofundar, deixando apenas o terror crescente do nada para se pensar.
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