Vou Para Casa
Manoel de Oliveira descarta a aposentadoria

por F. Fischl

Após O convento, 1995, Manoel de Oliveira conta novamente com a participação amigável de Catherine Deneuve e John Malkovich em Je rentre à maison, 2001. À frente do elenco está Michel Piccoli, um ator veterano de 75 anos que abre o filme contracenando com Deneuve numa montagem teatral de O rei está morto, de Eugene Ionesco.

O personagem de Piccoli tende a se dedicar somente aos papéis que lhe agradam, ele recusa uma participação num filme comercial em detrimento de atuar em A tempestade de Shakespeare. “Não me vendi a vida toda, porque iria fazê-lo agora que estou velho?” pergunta o próprio Oliveira através de seu ator. Todavia, quando finalmente a escassez de projetos interessantes é vencida pela chance de participar das filmagens de Ulysses, Piccoli abandona o diretor interpretado por Malkovich sem explicações. O artista está cansado, então deixa o estúdio dizendo com toda a naturalidade: “Vou para casa”.

Em grande parte da apresentação de O rei está morto a câmera permanece nos bastidores, onde três homens aguardam o personagem de Piccoli para comunicar-lhe sobre a morte de sua filha e genro. Isto significa que a partir de então ele terá que viver com seu neto, um órfão de apenas 8 anos. Da mesma forma, durante todo o ensaio de Ulysses assistimos um close de Malkovich, enquanto apenas ouvimos o personagem de Piccoli. Por vários minutos, nos resta apenas adivinhar o que se passa, observando o olhar de Malkovich.

O gosto de Oliveira por desprezar o convencional se evidência em sua preferência por trabalhar com a ação ocorrendo fora do campo de visão da câmera. Som e imagem nunca compõem um todo redundante. Merece destaque a cena em que Piccoli para em frente à vitrina de uma loja de pôsteres e admira The singing butler de Jack Vettriano, um consagrado artista plástico escocês. Quando a vendedora sai para conversar com Piccoli na calçada, a câmera se posiciona dentro da loja e mostra a conversa dos dois através do vidro, neste momento somente podemos supor o que os dois estão falando.

Críticos rancorosos costumam advertir que toda a mágica de Oliveira reside apenas no fato dele ser o diretor mais velho em atividade no mundo. Uma bobagem, pois há muito que se aprender com este cineasta português, nascido em 11 de dezembro de 1908. O mote de Vou para casa, é baseado num incidente ocorrido nas filmagens de um de seus últimos filmes, e não se trata de uma aposentadoria anunciada. Desde então o diretor já finalizou Jóia de família e trabalha em um novo projeto.


The singing butler de Jack Vettriano


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F. Fischl é Bacharel em Comunicação Audiovisual pela Univ. Federal de São Carlos
filipe@wezen.com.br

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