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Fim de tarde tradicional por Pedro Augusto Vieira |
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Fim de tarde tradicional. Um calor pasmacento com pingos do suor do fim do dia. Tudo é aquela sombra alaranjada se esvaindo das nuvens que vejo, bíblicas, ao entardecer. Um entardecer de dia comprido, dia inteiro... misturado ao calor tradicional do inverno. O ar... um passo voa... o alaranjado céu se reflete no prédio ao lado Outro pássaro... outro mais adiante... outro prédio mais adiante, mas neste não dá para ver a janela se reflete ou não. Em um dos prédios parece haver uma espécie de chaminé. Será que nesse prédio tem lareira? Como será a fumaça subindo, subindo até sair por aquela casinha? Será que vai grudando no caminho, deixando para trás um buraco preto e sujo? Será que alguém já olhou lá dentro? Entre as árvores, que formam uma mancha escura de bolas, pontas e outros formatos que permeiam o horizonte no limiar do dia e da noite. Uma antena lá no fundo, maior que todas as árvores... várias antenas formando uma imensa competição de ferros bizarros espetados no topo desses montes de cimento habitáveis... alguns melhores que outros, porém todos com gente dentro. Uns em cima dos outros. O telefone na outra sala toca, era a Camila. Falamos por algum (pouco) tempo, combinamos de nos falar depois... enfim... tudo aquilo que duas pessoas costumam falar no final da tarde, quando se sente um estresse no ar entre pessoas aflitas que ainda tem alguns eternos minutos para sair de seus respectivos escritórios e adjacências... tudo acontecendo ao mesmo tempo, tudo isso sendo parte deste fim de tarde melancólico para mim. Antes do título deveria estar escrito: não leia após quinze horas. O céu não está mais tão laranja, perdeu a cor e prepara-se para se entregar às nuvens que poderão chover de noite. Que chova, assim quem sabe essa água lave o dia dessa sensação temperamental que discorda do bem e briga com o mal... ou será que o malvado sou eu? Como estarei eu? Preto de cinzas, sujo? Será o calor? Cadê o telefone que não toca para me tirar dessa cadeira que já está até quente... estou com o suor secando no corpo, uma vontade de tomar banho... de me lavar... deixar a fumaça sair... a fumaça preta que não quer sair por inteiro e fica nos cantos ao longo do fim do dia. Fresta de azul vem me dizer boa noite... as antenas ainda estão lá, com o tempo vão se esconder no breu, assim como o reflexo naquela janela. O prédio das lareiras, as árvores e a antena maior. Tudo diz boa noite. Tudo. Mesmo o que o horizonte não me deixa ver, aqueles que estão em caixas, caixote, carros ou nas calçadas dessa cidade tão "modernizadamente" gótica. A noite é o melhor remédio. É quando o que mais se vê é a lua, quando tem lua. Queria ficar com o pescoço duro toda noite para que pudesse ver as estrelas, que parecem existir feitas de simplicidade. A noite é simples, ela se deixa levar e morre com o sol. Ela morre, renasce na escuridão. Vai embora levar mais paz para outros povos... não posso vê-los da janela. Não vejo ninguém nesse sexto andar além de frestinhas de fim do dia. Uma luzinha vermelha se ascendeu bem ali... ali... viu? Pedro
Augusto Vieira é escritor e colaborador regular de Wezine |
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