Tempus

por Pedro Augusto Vieira

 

Entro pela porteira da fazenda em que morava com meus pais. Uma casca azul denuncia um resquício da cor que recobria esta. Quando era criança costumava subir na porteira e abrir e fechar, para lá e para cá...

Vou andando pelo caminhosinho de pedras já tão quebradas e desfeitas, que antes enfeitavam a entrada de casa com um jardim que só mamãe sabia fazer e que dava inveja para as visitas de "Sum Paulo". Mas ao olhar para o chão, percebo que uma das pedras ficara exatamente como estava. Era a única pedra solta, onde eu costumava esconder meu dinheiro para ir ao circo. Tirei a pedra, com muita dificuldade, cavei, e me surpreendi ao ver a latinha, já carcomida pela ferrugem, e algumas moedas em igual estado. Coloquei-as no bolso.

Continuei andando, até chegar à porta de casa. E que porta! Meu pai mandara colocar aquela porta há sessenta anos, para competir com a do vizinho, que diziam, era de Pau Brasil puro. Sem dificuldade a abri. Esta já não estava tão forte, toda furada de cupim.
Entrando em casa, vi o tapete que mamãe tanto gostava, que varria todos os dias:

-Este tapete é caríssimo. Veio lá do Rio de Janeiro - dizia mamãe, cheia de orgulho. Vi também o cadeirão onde papai sentava e lia os jornais fumando seu cachimbo calmamente. Mas ao ver bem, qual nada! Tudo era sujeira. Os vidros das janelas que outrora davam a uma vista linda do rio (que hoje por sinal, secou) estavam quebrados. Lembro-me bem que mamãe gostava de ficar ali, parada, observando o rio, e tomando o seu tão desejado suco de jenipapo.

Entrei na sala de jantar. A mesa ficava bem no centro. Mamãe sempre passava cera nesta, que ficava sempre brilhante. A prataria mais polida do que corrimão de teatro. Hoje só o chão esburacado. A sujeira na parede se torna mais evidente com o por do sol, laranja. Era exatamente assim, me lembro bem, que o sol estava, quando eu e meus pais estávamos nos sentando para jantar...

Vou ao corredor que leva aos quatorze quartos da casa. Quartos estes que nunca eram usados, só uma vez, no casamento de minha tia Clotilde. Todos os quartos foram ocupados naquela noite, e de repente alguém gritou:

-Cobra! - todos saíram dos quartos para a sala, gritando freneticamente. Vendo que o histerismo não teria fim, papai pegou a espingarda e deu um tiro para cima, mas o tiro foi direto na caixa d'água, que estourou e derramou-se em papai. Todos caíram na risada como nunca mais. E a cobra...era empalhada. Olho para cima e vejo o buraco ainda ali. Poderia ouvir as gargalhadas e meu pai, encharcado, completamente sem graça.

Caminho até a varanda. Enorme. Era o orgulho de mamãe, pois na nossa varanda podia-se ver o nascer e o pôr do sol. Ela costumava-se sentar na espreguiçadeira que papai mesmo fez para ela, e ficava observando as estrelas e ouvindo o cochicho das águas do rio. Hoje só ouço carros e caminhões. Os grilos cantando se transformaram em buzinas. O rio virou lixeira, e a casa caindo aos pedaços, assim como eu, velho e inútil.

Gostaria de voltar para aqueles maravilhosos tempos de criança, de subir na jabuticabeira, de levar bronca da professora, de brincar, de namorar. Mas estes tempos não voltam mais. Aqui estou eu, infeliz, sozinho. Se soubesse os caminhos que me seriam reservados, acho que preferia não sair daqui. Mas eu fui embora, contra a vontade de minha mãe. Meu pai só que dizia:

- Esse menino precisa arrumar caminho na vida.

- Mas precisa ser tão longe daqui? Lá em Sum Paulo?

- Lá que as coisas acontecem, Mirinha (minha mãe se chamara Maíra, todos a chamavam de Mirinha).

E assim fui eu para "Sum Paulo". Trabalhei, fiz fortuna. Casei e fiz família. Amei minha esposa, criei meus quatro filhos. Então um dia ela morreu e meus filhos foram cada um para um canto. Eu fiquei rico e sozinho num apartamento enorme por dez anos. Então vendi. Eu quero reformar este casarão e morar aqui. Mas eu quero fazer tudo como era antes, quem sabe se eu conseguir colocar as coisas exatamente como eram, meus pais voltem, e eu rejuvenesça, e volte a ser feliz!

Pedro Augusto Vieira é escritor e colaborador regular de Wezine
augustovieira@yahoo.com

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