A vida ao redor - n°4
O Terror do Vício Humano

por Martim Vasques da Cunha

 

"Réquiem Para Um Sonho" (Requiem for a Dream, EUA, 2001), de Darren Aronofsky, é um soberbo filme de terror. Poucos filmes mostraram até que ponto chega o ser humano para satisfazer os impulsos de destruição que invadem a alma, numa constante fuga da realidade, terminando no inferno atroz que é o vício - qualquer tipo de vício.

O terror que Aronofsky exibe é filmado com um rigor quase kubrickiano. São quatro personagens principais: Sara (Ellen Burstyn, excepecional), uma viúva solitária, fanática por programas de auto-ajuda e que não consegue aceitar que seu filho, Harry (Jared Leto, de "Fight Club"), é um viciado; o amigo de Harry, Tyrone (Marlon Wayans, provando que não faz só comédias de quinta categoria), que embarca com ele no negócio perigoso do tráfico de drogas; e Marion (Jennifer Connely, num papel corajoso), namorada de Harry, linda, rica, talentosa, mas tão auto-destrutiva quanto seus companheiros.

Aronofsky mostra que domina a gramática cinematográfica: manipula a câmera com todos os seus movimentos, joga com truques de edição, dirige seus atores com uma sensibilidade que chega às raias do visceral. Ele poderia cair no seu próprio vício de virtuosismo técnico e destruir o filme por completo. Mas a história é tratada com o distanciamento necessário, não se preocupando em passar sermões, explicações ou soluções, e sim narrar o que está acontecendo com aquelas pessoas naquele estado de perturbação da alma que só o vício pode provocar.

Adaptado do romance homônimo de Hubert Selby, Jr. (autor do também barra-pesada "Last Exit to Brooklyn", que virou filme com Jennifer Jason-Leigh, dirigido por Uli Edel), "Réquiem Para Um Sonho" lança Darren Aronofsky no triunvirato dos novos mestres do cinema americano: ele, Paul Thomas Anderson (de "Magnólia") e David Fincher (de "Seven" e "Fight Club"). É um cinema que usa o meio para contar histórias humanas e com um estilo que não se importa em fazer concessões, seja de forma ou de conteúdo. É o contrário, por exemplo, de um Frank Darabont em "Cine Majestic", que prefere fazer uma pífia propaganda política ao invés de enfrentar o dilema moral que o personagem de Jim Carrey sofre. Aronofsky vai até ao inferno com seus personagens e não espera muito de que eles possam voltar para alguma espécie de paraíso.

Pode ser um filme sombrio, mas, nos dias atuais, é um filme saudável porque mostra um diretor novo, com menos de trinta anos, que tem uma coragem indomável de fazer do cinema uma arte que mostra o ser humano com todas as suas luzes e sombras. Em "Réquiem Para Um Sonho", apesar das sombras serem muitas, não se pode esquecer das ternas cenas entre Jared Leto e Jennifer Connely trocando juras de amor, ou do plano-seqüência maravilhoso em que Tyrone se lembra da sua mãe carregando-o no colo. "Um dia serei famoso, mãe, e vou te dar tudo o que você quiser", diz ele. "Não precisa me dar nada. Você só precisa amar a sua mãe", responde ela. Aronofsky pode não ser um moralista, mas nesta cena ele dá o tema da sua obra: às vezes o sentido da vida está nos atos mais simples, mesmo que estes sejam os mais doloridos de serem realizados.

Também publicado no jornal Correio Popular, de Campinas, no dia 21 de abril de 2001.


Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista

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