![]() |
|
Resistência Humanista Jean-Paul Sartre e o Existencialismo na Resistência Francesa por Fernando Andrade |
|
A Resistência Francesa A II Guerra Mundial é o principal marco do desenvolvimento do existencialismo francês, muito influenciado pelas experiências da resistência contra a Alemanha. Com o fim do conflito, filósofos franceses adotaram uma postura apreciativa com relação ao Partido Comunista Soviético. Tal posição obviamente era contra a corrente defendida pelos Estados Unidos. Contudo, Jean-Paul Sartre e outros filósofos existencialistas já eram socialistas antes deste período. Albert Camus, por exemplo, fora muito mais engajado politicamente do que Sartre, que durante o período de estudante, não se centralizou nas atividades políticas. Foram estes dois filósofos, normalmente reconhecidos como os dois existencialistas mais influentes, que se tornaram peças chaves na resistência. Camus tinha personalidade ativa na política da Algéria, sua terra natal. Tendo nascido em um ambiente pobre, conscientizou-se prematuramente dos problemas sociais a seu redor, participando de grupos socialistas já ao entrar na faculdade. Sartre foi mais político no final da II Guerra, sua família, de boa posição social, o manteve longe dos assuntos políticos. A guerra transformou esses dois homens em ativistas. Sartre tornou-se um líder defensor da União Soviética, enquanto que Camus promoveu o que ele chamava de "socialismo humanista" ou socialismo com compaixão. Sendo ambos partidários do marxismo, acabaram por usar sua fama de escritores de ficção para promover os ideais que julgavam nobres. Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957, julgando-o como uma ferramenta para argumentar pelos direitos humanos. Curiosamente, Sartre, cuja personalidade era dotada de traços um tanto egocêntricos, recusou-se a receber o prêmio em 1964. Contudo, tal ato ocasionou uma grande repercussão na imprensa e Sartre recebeu a atenção desejada. Pode ser um pouco injusto caracterizar os existencialistas franceses de políticos, mas sem dúvida, eles eram politicamente ativos, e a França fora o centro do denominado existencialismo político, sendo a Resistência Francesa, o refúgio dos maiores pensadores deste período.
Breve História O existencialismo é um movimento filosófico e literário distinto, pertencente aos séculos XIX e XX. Contudo, seus elementos já podem ser encontrados no pensamento de Sócrates, e até mesmo na Bíblia, sem contarmos o trabalho de muitos filósofos e escritores pré-modernos. Culturalmente, há dois grupos principais de existencialistas: Alemão-Dinamarquês e Anglo-Francês. Além desses, as culturas judaica e a russa também contribuíram com este pensamento. O movimento filosófico agora conhecido como existencialismo pode ser traçado de 1879 até 1986, quando Simone de Beauvoir morreu. Após ter atravessado vários distúrbios civis, guerras locais e duas guerras mundiais, tornou-se inevitável que algumas pessoas na Europa fossem forçadas a concluir que a vida é inerentemente miserável e irracional. Mas antes que se chegue a esta conclusão, deve-se ressaltar que tomada a diversidade de posições associadas ao existencialismo, não podemos definir o termo com grande precisão. Somente alguns temas comuns à maioria dos escritores existencialistas, podem ser assim denominados. O principal é a ênfase posta na existência individual concreta e, conseqüentemente, na subjetividade, na liberdade individual e nos conflitos da opção. Foi o filósofo religioso dinamarquês Sören Kierkegaard, o primeiro escritor a usar o termo existencialismo, afirmando que o mais alto bem para o indivíduo consiste em encontrar sua própria e única vocação. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, grande influência para Sartre, atestou que o indivíduo é obrigado a decidir que situações devem ser consideradas morais. Nietzsche tentou provar que os valores tradicionais - representados, principalmente, pelo cristianismo - tinham perdido poder na vida das pessoas. Expressou este pensamento na proclamação "Deus está morto". Nietzsche atacava a "moralidade escrava", criada por pessoas fracas que estimulavam comportamentos como a submissão e o conformismo. No fim, todos os existencialistas acabaram por se basear
em Kierkegaard, insistindo que a experiência pessoal e o agir
segundo as próprias convicções são fatores
essenciais para se chegar à verdade. Asseveraram que a clareza
racional é desejável onde e quando for possível,
mas que os temas mais importantes da vida não são acessíveis
à razão e à ciência. Apesar disso, talvez a temática de maior importância na filosofia existencialista seja a da opção. A mais importante característica do ser humano é a liberdade de escolha. Os seres humanos não têm uma natureza imutável, destino pré definido ou essência, como têm os outros animais ou as plantas; cada ser humano faz opções que configuram sua própria natureza. Kierkegaard afirmava que é fundamental para o
espírito reconhecer que temos medo não só de
objetos específicos, mas também de um indefinido sentimento
de apreensão, que ele denominou temor. Temor que é,
segundo ele, a forma que Deus tem de pedir a cada indivíduo
um compromisso, adotando um estilo de vida pessoal válido.
A palavra angústia, para Martin Heidegger, filósofo
alemão que desenvolveu a fenomenologia existencial, surge do
confronto do indivíduo com o nada e com a impossibilidade de
encontrar uma justificativa última para a opção
que cada pessoa tem de fazer. Na filosofia de Sartre, a palavra náusea
é usada para descrever o reconhecimento, pelo indivíduo,
da contingência do Universo. O Homem está condenado a ser livre "Dostoiewsky escreveu: "se Deus
não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa
o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido
se Deus não existisse; fica o homem por conseguinte, abandonado,
já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade
a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas
para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência,
não será nunca possível referir uma explicação
a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras,
não há determinismo, o homem é livre, o homem
é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existisse,
não encontramos diante de nós valores ou imposições
que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás
de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso
dos valores, justificações ou desculpas. É o
que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.
Condenado, não se criou a si próprio; e no entanto livre,
porque uma vez lançado ao mundo, é responsável
por tudo quanto fizer (...) O existencialismo pensa portanto que o
homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxilio, está condenado
a cada instante a inventar o homem. Como alguém disse "o
homem é o futuro do homem"." A temática da liberdade constitui verdade atemporal. Também
para Platão, o homem é um ser cuja vida resulta da liberdade
de escolha. Embora afastado por séculos de Sartre, ambos concordariam
em afirmar uma liberdade absoluta do homem, independente dos problemas
que elas possam causar. Pois podemos relacionar à liberdade
que o homem vive, uma tensão, aparentemente inevitável,
que o homem experimenta estando apto a construir seu próprio
caminho. São os conflitos decorrentes da liberdade tão
bem descritos por Sartre como a angustia e o abandono. Na obra de
Camus, também são constatados sintomas colaterais da
existência livre, que ocasionam o absurdo ou a ausência
de sentido na vida. Existencialismo e um Humanismo Podemos dizer que a distinção entre essência e existência, corresponde a distinção entre conhecimento intelectual e conhecimento sensível. Para o existencialista a existência é anterior a essência, uma vez que as idéias, não precedem as coisas, pois não se acham previamente contidas na inteligência do homem nem na inteligência de Deus. Devemos nos lembrar ainda, que Sartre era ateu convicto. Desta forma as idéias são contemporâneas das coisas, são as próprias coisas. Assim, o existencialismo não constitui uma teologia ou até mesmo uma cosmologia. O existencialismo é primordialmente uma reflexão filosófica sobre o homem, uma antropologia. Nesta perspectiva surgem os temas ou problemas deste pensamento, como a morte, a fragilidade da existência humana, a náusea, a angústia, o abandono, o desespero... Em o Existencialismo é um Humanismo, podemos compreender melhor Jean-Paul Sartre: "Quando concebemos um Deus criador, esse Deus
identificamos quase sempre como um artífice superior; (...)
admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos a inteligência
ou pelo menos a acompanha, e que Deus, quando cria, sabe perfeitamente
o que cria. Assim, o conceito do homem, no espírito de Deus,
é assimilável ao conceito de um corta-papel no espírito
do industrial; e Deus produz o homem segundo técnicas e uma
concepção, exatamente como o artífice fabrica
um corta-papel segundo uma definição e uma técnica.
Assim, o homem individual realiza um certo conceito que está
na inteligência divina. (...) " A existência precede a essência". Com esta frase estamos diante dos fundamentos de O existencialismo é um Humanismo. Se imaginamos um ser criador, de certa forma afirmamos que o homem não é muito diferente de um corta-papel. Pra Sartre a chamada natureza humana nada significa, o filósofo a substitui pelo conceito de condição humana. Concerne a Sartre que o homem esteja preparado para que diante de suas inúmeras escolhas assuma a responsabilidade de uma opção. Nesta responsabilidade reside a angústia de escolher tanto a si como a toda a humanidade, e nenhum ser escapa desta condição. Somente a liberdade diante de nossas escolhas, pode criar um conteúdo para o homem. Alguns homens ao experimentar esta liberdade sofrem terrível angústia aninhando-se na má fé. Como princípio se Deus não existe, somos
livres e não temos nenhuma desculpa para nossos atos. Mas se
acreditarmos em um criador supremo, o livre arbítrio, constitui
uma maldição e não uma dádiva. Sartre
não foi criado sem religião, mas provavelmente tudo
o que ele presenciou na Segunda Guerra com a ocupação
alemã, o levou para longe da crença. Para o existencialista,
leis e regras sociais, podem ser compreendidas como dogmas fúteis,
que visam ser o equivalente aos Dez Mandamentos da Bíblia,
ou seja, não são mais que o resultado da tentativa do
homem de limitar suas próprias escolhas Fernando
Andrade é filósofo e escritor |
|
|
Copyright©
2002 - Wezen design
|