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Desejo em Solaris “Um sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido ou recalcado).” Sigmund Freud por Fabio De Riggi |
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Trata-se de “Solaris” de Andrei Tarkovsky (URSS, 1972) – sugiro ao leitor que o veja antes de prosseguir a leitura. E, de fato, o filme é lento e longo¹. Mas dizia, algum poeta, que já não acreditava na divisão forma/conteúdo, que a forma deve ser ideal, perfeita para o conteúdo que a consome. Pois o livro homônimo de Stanislaw Lem (Ed. Relume Dumará, 2003. Trad. de José Saenz) também é lento. E não creio que isto seja pretexto para a produção de um filme cansativo; muito menos que a produção de um filme cansativo seja desproposital. Ainda mais em se tratando da insegurança de Tarkovsky quanto à aceitação do público e do Estado. A linguagem estética do diretor é uma boa justificativa. E não fosse por ela, eu não teria tido tempo para processar interpretação alguma enquanto passeava pela morbidez kitsch da estação espacial de Solaris. E por mais que alguém discorde, a estrutura do roteiro é densa demais para permitir um andamento acelerado do filme. Isso sim, talvez devido ao livro, pois para descrições ricas há imagens ricas. E é por isso que ando curioso e amedrontado com o recém-lançado “Solaris” (EUA, 2002), estrelado por George Clooney, ao qual ainda não assisti. Mas vamos à interpretação. O filme possui uma relação do desejo com a aceitação deste pela mente e a posterior generalização dessa afirmativa. Temos a personagem Hari, falecida, objeto do desejo do protagonista Chris Kelvin. E Hari, materializada em Solaris, suposta concretização do desejo. O conflito essencial da obra é a relação de Kelvin com Hari de Solaris e desta com o ambiente, predominantemente hostil. Hari possui falhas de memória e características que a diferenciam de um ser humano, bem como todo objeto “inalcançável” de desejo, que se concretiza em sonho posteriormente filtrado pela capacidade interpretativa do desejante, intencional ou não, mas inevitável, como a transposição de algo da mente para algum código interpretativo.
Dada a hostilidade dos demais tripulantes da estação ante as materializações humanas que ali ocorrem e as dificuldades que tem para se relacionar com Hari (de Solaris), em parte pela disputa lógica entre realidade e ilusão, Kelvin acaba disponibilizando sua mente para o oceano do planeta, suposta fonte dos acontecimentos em questão. A realização do encefalograma de Kelvin provoca o esgotamento das materializações, levando a crer que o conhecimento completo da mente humana (metaforizada pelo encefalograma) acaba sendo responsável pela extinção das representações traumáticas da mente. Assim, o autor universaliza o conflito essencial da obra através da metáfora do oceano. Pois a consciência do desejo (Hari), inclui-se aí a aceitação, deve extinguir o sintoma (Hari de Solaris), o que de fato acontece. Podemos entender, portanto, que o grande dilema é a aceitação, por parte de Kelvin, do abandono e da morte da esposa e a generalização disso para a questão do desejo reprimido para o ente humano. Outro ponto de universalização do fato é a materialização de outros seres relacionados a todas as personagens que freqüentaram Solaris. Assim, o oceano seria a representação, não de uma mente, mas do mecanismo geral da mente humana. O que permite, ao final do filme, a cena em que Kelvin se encontra numa ilha, no extenso oceano de Solaris: um mundo ideal, um final feliz, garantido pelo conhecimento pleno do processo dinâmico que sustenta a nossa mente. Assim, enquanto o filme pedia minha auto-análise através dos sintomas de Kelvin, eu me cegava com a possibilidade de cura das minhas neuroses no oceano de Solaris. E, a mim, a estética de Tarkovsky, lenta ou não, está justificada. Notas:
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