Walkman

video ensaio digital


cena de Walkman, 2000

Em julho de 1994, era possível ler em qualquer jornal que o primeiro ministro israelense Isaac Rabin e o rei Hussein da Jordânia reuniram-se na Casa Branca, nos Estados Unidos, para firmar um tratado de paz, pondo fim a 46 anos de guerra e tensão entre os dois países. Com a presença do presidente desse país, Bill Clinton, os dois dirigentes assinaram uma declaração em que Israel e Jordânia se comprometiam a encerrar o conflito entre os dois países.

Em julho de 2000, era possível ler no pré roteiro de Walkman que as divergências destes dois povos tão distintos não se resolveram na prática, após o acordo endossado pela fada madrinha do Tio Sam. Da mesma forma o fim da guerra fria não tornou possível que a ex URSS passasse a viver em harmonia ideológica e cultural com a América. Talvez daí tenha nascido o primeiro personagem de Walkman. Trata-se de Cristóvão Colombo, o navegador que descobriu a América, ou o melhor de Isaac Colombmann, um novo judeu convertido, procurando seu lugar no mundo. O segundo personagem de Walkman, não menos importante, é Yuri Gagarin, o primeiro homem a deixar nosso planeta a bordo de uma nave soviética, ou o melhor trata-se de O´Gagarin, um irlandês, novo católico.

Em Walkman os acontecimentos não se desenvolvem dentro de nenhuma limitação espacial, pois nada poderia ser mais lógico dentro de um planeta pré globalizado. Os personagens estão em constante movimento questionando a existência de fronteiras, e seu próprio conceito de lar. O'Gagarin não se sente bem na Irlanda e por isso acha o IRA tão necessário. Séculos antes, em 1492, descobrimos por que a Rainha Isabel acreditava ser o italiano Colombmann o homem certo na corte espanhola para chegar a América.

Como vemos Walkman não pretende ser uma obra documental, embora possa ser definido a partir de três palavras: Migração, Identidade e Cultura. Se as fronteiras que nos enclausuram numa sensação de conforto e identidade cultural não se transformassem em prisões, certamente não haveria matéria prima para construir este roteiro. Se as fronteiras não constituíssem farsas políticas e garantissem completa identidade cultural dentre seus habitantes, Walkman não faria nada além de retratar a temática de um mundo perfeito e por que não dizermos utópico.


O'Gagarin em estação ferroviaria

 

Leia a seguir, trecho de um diálogo de Walkman:

Olhe para uma coruja e você terá certeza que a visão é o sentido mais importante deste pássaro. Seus olhos arregalados se fixarão em você transmitindo sabedoria ou maldade dependendo do humor da ave. A habilidade da coruja para enxergar diante de quantidades de luz mínimas a tornam lendária. Um inglês não conseguiria encontrar as chaves do carro que perdeu no meio de um blecaute às 9 da noite, no maior aeroporto da cidade. A coruja conseguiria, se tivesse um carro. A temperatura anal de uma coruja é de 40 graus C. A de um inglês a de um árabe ou até mesmo a de um japonês é de 37 graus C, ela não varia. Não importando, por exemplo, se este japonês está em Tokyo, ou caminhando em Nova York, com seus óculos de grau que a coruja não precisa. A audição da coruja também é extremamente desenvolvida. Pensando nisso, enquanto andava pelas ruidosas ruas de Nova York, Akio Morita, presidente de uma importante multinacional japonesa, teve uma brilhante idéia. Alguns meses depois, em janeiro de 1980, era lançado no mercado o Walkman Sony. O vazio da vida metropolitana passa a ser preenchido pelo acesso à trilha sonora móvel. O que aparentemente ocasionou uma recusa de integração com a sociedade e um regresso individualista, acabou compensado pela possibilidade de um diálogo com a cidade a partir da seleção de músicas próprias. O ouvinte recria a paisagem urbana deixando sua marca por onde passa. O Walkman reafirma nossa identidade própria, sendo o objeto que possibilita a união da arte com o transitório. Ele consolida em nossos bolsos, as mudanças político artísticas de nosso tempo. Através dos headphones, ouvimos um stereo paradoxal de globalização e individualismo andando lado a lado e construindo passagens. O Walkman é a forma última da arte migratória, e como o laptop, o telefone celular e acima de tudo o cartão de crédito é uma das mais privilegiadas invenções do nômade contemporâneo.


Video ensaio digital produzido pelos alunos do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos, para maiores informações visite:
www.videowalkman.cjb.net

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